Um lateral-direito de 18 anos por mais de R$ 10 milhões. É esse o tamanho da aposta do Cruzeiro em Kauã Moraes, conhecido como Careca, que desembarcou em Belo Horizonte no sábado (30) para fazer exames e assinar contrato. A operação foi viabilizada via depósito da multa rescisória, um recado claro do clube: vale pagar caro por quem pode render no presente e multiplicar valor no futuro.
Kauã chega depois de se firmar rapidamente no time principal do Athletico-PR nesta temporada. Mesmo muito jovem, ele emendou sequência como titular, acumulou minutos em jogos do campeonato nacional e da Copa do Brasil e entregou rendimento: foram 16 partidas como profissional, 2 gols e 1 assistência. No ambiente interno da Toca, a leitura é que ele entra para competir já, sem etiqueta de “projeto distante”.
A posição ajuda. William é o dono da lateral direita, mas a maratona de jogos exige rotação e um reserva pronto. A situação se agrava com a recuperação de Fagner, que fraturou a fíbula no fim de julho. O novo reforço tende a ser o primeiro da fila para entrar, acelerando o ritmo de adaptação a um elenco que disputa objetivos grandes no segundo semestre.
Quem é Kauã Moraes e por que o Cruzeiro apostou nele
Natural de base forte, Kauã foi formado no Palmeiras, onde passou por sub-15, sub-17 e sub-20 em uma geração recheada de talentos: dividiu vestiário com Endrick, Estêvão e Luis Guilherme. Chegou ao Athletico no início do ano, brilhou rapidamente no sub-20 — foram 14 jogos e 3 gols — e subiu ao profissional, onde ganhou sequência e mostrou maturidade incomum para a idade.
Em campo, o perfil que seduz os scouts: intensidade para fazer a ida e volta, explosão para ganhar a primeira linha no duelo com o ponta, e boa execução no último terço — com cruzamentos rasos e passes por dentro a partir do corredor. O detalhe que chama atenção é a chegada na área. Os 2 gols como profissional não parecem acidente: ele pisa no setor de finalização como meia surpresa, um recurso valioso contra defesas baixas.
Outro ponto que pesou: leitura defensiva. Para um lateral que avança muito, o retorno sem falta e o timing de desarme são básicos. Nos relatórios, Kauã aparece forte no 1x1 e com boa cobertura do zagueiro do lado, o que facilita encaixes em linha de quatro. Num time que gosta de acelerar transição, ter um lateral agressivo que não desorganiza a retaguarda é ouro.
Os números ajudam a contar a história da temporada do garoto:
- 16 jogos no profissional em 2025;
- 15 como titular, apenas uma entrada no segundo tempo (na estreia);
- 2 gols e 1 assistência;
- 14 partidas e 3 gols no sub-20 no começo do ano, antes da promoção definitiva.
Do ponto de vista de mercado, pagar acima de R$ 10 milhões por um lateral de 18 anos já não é exceção no Brasil. O aumento de protagonismo do setor — com laterais participando muito por dentro, quase como meias — elevou o preço de quem entrega físico e leitura tática. A janela europeia também pressiona: se o clube quer fugir do leilão lá na frente, antecipa o movimento agora, ainda mais com alguém que já pegou tração no profissional.

Impacto no time, bastidores da negociação e a memória de Vitor Roque
No desenho do elenco, a chegada muda o nível da disputa interna. William segue referência técnica e de liderança, mas a dinâmica da temporada pede dois jogadores prontos por posição. Kauã permite que o técnico ajuste a estratégia conforme o rival: dá para usar um lateral mais agudo em jogos que pedem amplitude, ou até liberar William por dentro, com o garoto aberto para fixar o ponta adversário.
Com Fagner em recuperação, a tendência é que Kauã ganhe minutos já nas próximas convocações. O clube planeja uma transição controlada: treinos específicos de encaixes defensivos, rotina de vídeos para acelerar a leitura de movimentos do bloco e minutos progressivos para evitar queimar etapas. O staff físico não quer saltos bruscos de carga. Resultado: ele deve aparecer primeiro em jogos de maior controle, entrando do banco, até virar opção real de início.
A operação em si foi direta e silenciosa. A área de scouting liderada por Joaquim Pinto, com participação do observador Rodrigo Pelaipe, conduziu conversas com os representantes do atleta e mapeou o caminho jurídico da rescisão. Sem novela pública: quando o clube teve segurança sobre a execução da multa, fez o depósito e fechou a porta para contraofertas. É a cartilha que o futebol brasileiro vem adotando para evitar atravessadas de última hora.
O valor investido carrega também um peso simbólico. Três anos após a saída de Vitor Roque rumo ao Athletico em uma transação superior a R$ 24 milhões, parte da torcida interpreta o movimento como uma resposta no tabuleiro. Não há compensação direta, claro — são casos diferentes —, mas o recado é claro: o clube não quer mais ser coadjuvante quando o assunto é reter e atrair talentos em ascensão.
Esportivamente, o encaixe faz sentido. O time precisa de mais profundidade pelos lados, e o calendário cobra elencos curtos. Ter um lateral capaz de empurrar a última linha adversária abre espaço por dentro para meias e centroavantes, além de melhorar a bola parada ofensiva com mais presença na área. Defensivamente, um lateral jovem e veloz ajuda a proteger o lado fraco nas transições — o ponto em que muitos jogos se decidem.
No médio prazo, a aposta pode se pagar de duas formas: performance e mercado. Se Kauã sustenta a curva de evolução, vira ativo esportivo imediato e, mais adiante, ativo financeiro relevante para uma venda externa. É o manual das SAFs e dos clubes que equilibram contas com venda de atletas: errar faz parte, mas quando acerta, paga a conta de algumas janelas.
Há riscos? Sempre. A adaptação a um novo vestiário, a pressão por resultado e a exigência física de um calendário cheio podem atravessar o processo. A comissão técnica trabalha para reduzir essas variáveis: microciclos com foco em recuperação, controle de minutagem e correções semanais de posicionamento. Na base, o talento se impõe; no profissional, detalhe e repetição diferenciam.
Para o torcedor, o retrato geral é animador: um lateral de 18 anos, já testado no profissional, que chega para disputar posição sem protocolo de “prateleira futura”. Para o clube, a mensagem é de projeto: gastar mais agora para formar, valorizar e decidir com bola nos pés. Se Kauã entregar o que apontou no Athletico — e evoluir um degrau no ambiente da Toca —, a lateral direita ganha profundidade e o time, um novo caminho pelo corredor.
O próximo passo burocrático é simples: registrar o atleta e deixá-lo à disposição. Ele já conhece parte do grupo e terá uma semana cheia de treinos antes de ser relacionado. A partir daí, o campo fala. E quem viu o início de 2025 de Careca sabe: ele gosta de acelerar a conversa.